Eu mesmo não nego que não peques, visto que é formosa,
Mas que não seja necessário que eu, miserável, saiba;
Que a minha censura não queira que tu te tornes pudica,
Mas, contudo, [ela] pede que tentes dissimular.
Toda aquela que pode negar ter errado não peca
E só uma culpa declarada faz a sua fama.
Que furor é [esse] em revelar à luz do dia as coisas
Que se escondem à noite,
E expor publicamente as coisas que fizeste às escondidas?
A meretriz que deverá entregar o seu corpo ao desconhecido Quirites
Antes afasta o povo colocando diante a porta;
Tu expões os teus pecados por uma fama sinistra
E expões a prova da tua união?
Que tu tenhas um pensamento melhor,
Para que pelo menos as pudicas te imitem
E eu julgue ser honesta, ainda que não sejas.
Que coisas fazes, faz esta;
Negue ter feito tanto e não tenhas vergonha
De falar em público palavras modestas!
Há um lugar que estimula a malicia;
Onde o pudor fica longe,
Imite-o com todas as delícias!
Logo que o deixes, toda lascívia fica ausente imediatamente,
E deixe os crimes em teu leito.
Que lá não haja uma túnica para a tua vergonha,
E que a tua coxa possa ousar impor-se contra outra;
Que lá uma língua seja oculta por teus lábios purpúreos
E que o amor conceba prazeres de mil maneiras;
Lá nem as vozes e nem as palavras cedem auxílio
E a lasciva teria medo do leito e dos movimentos!
Cubra com a túnica o rosto que receia os crimes
E o pudor não confesse o trabalho obsceno;
Dá a tua palavra ao povo e a mim;
Deixe que eu , ignorante, vague,
E me seja permitido usufruir a tola crença.
Por que o teu colchão está pressionado na parte superior e inferior?
Por que vejo que seus cabelos estão mais bagunçados do que no sono
E que tens marcas de dentes no pescoço?
Não conduzes tantos crimes aos próprios olhos;
Se hesitares em abster-se de tua fama, abstenha-se de mim!
Fico sem cabeça e morro todas as vezes que confessas ter pecado,
E uma frigida lágrima escorre pelos meus membros.
Então amo, então odeio em vão porque é necessário amar;
Então eu desejo estar morto, mas contigo!
Sem dúvida não investigarei nada,
Nem seguirei aquilo que fazes esforço para esconder,
E enganar será como uma função (para ti).
Se, todavia, fores surpreendida em meio a culpa,
Hão de ser vistas pelos meus olhos as injurias,
Que foram bem vistas por mim, e que bem negas serem vistas –
Os meus olhos cederão as tuas palavras.
Tu tens uma vitória fácil ao vencer o que deseja ser vencido,
Lembro-me que há pouco fora a tua língua que disse: “Não fiz!”
Com estas duas palavras chegas a subjugar a ti
E se não vence por tua causa, vença pelo teu censo!

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