quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Livro III - Elegia 14



Eu mesmo não nego que não peques, visto que é formosa,
Mas que não seja necessário que eu, miserável, saiba;
Que a minha censura não queira que tu te tornes pudica,
Mas, contudo, [ela] pede que tentes dissimular.
Toda aquela que pode negar ter errado não peca
E só uma culpa declarada faz a sua fama.
Que furor é [esse] em revelar à luz do dia as coisas
Que se escondem à noite,
E expor publicamente as coisas que fizeste às escondidas?
A meretriz que deverá entregar o seu corpo ao desconhecido Quirites
Antes afasta o povo colocando diante a porta;
Tu expões os teus pecados por uma fama sinistra
E expões a prova da tua união?
Que tu tenhas um pensamento melhor,
Para que pelo menos as pudicas te imitem
E eu julgue ser honesta, ainda que não sejas.
Que coisas fazes, faz esta;
Negue ter feito tanto e não tenhas vergonha
De falar em público palavras modestas!
Há um lugar que estimula a malicia;
Onde o pudor fica longe,
Imite-o com todas as delícias!
Logo que o deixes, toda lascívia fica ausente imediatamente,
E deixe os crimes em teu leito.
Que lá não haja uma túnica para a tua vergonha,
E que a tua coxa possa ousar impor-se contra outra;
Que lá uma língua seja oculta por teus lábios purpúreos
E que o amor conceba prazeres de mil maneiras;
Lá nem as vozes e nem as palavras cedem auxílio
E a lasciva teria medo do leito e dos movimentos!
Cubra com a túnica o rosto que receia os crimes
E o pudor não confesse o trabalho obsceno;
Dá a tua palavra ao povo e a mim;
Deixe que eu , ignorante, vague,
E me seja permitido usufruir a tola crença.
Por que o teu colchão está pressionado na parte superior e inferior?
Por que vejo que seus cabelos estão mais bagunçados do que no sono
E que tens marcas de dentes no pescoço?
Não conduzes tantos crimes aos próprios olhos;
Se hesitares em abster-se de tua fama, abstenha-se de mim!
Fico sem cabeça e morro todas as vezes que confessas ter pecado,
E uma frigida lágrima escorre pelos meus membros.
Então amo, então odeio em vão porque é necessário amar;
Então eu desejo estar morto, mas contigo!
Sem dúvida não investigarei nada,
Nem seguirei aquilo que fazes esforço para esconder,
E enganar será como uma função (para ti).
Se, todavia, fores surpreendida em meio a culpa,
Hão de ser vistas pelos meus olhos as injurias,
Que foram bem vistas por mim, e que bem negas serem vistas –
Os meus olhos cederão as tuas palavras.
Tu tens uma vitória fácil ao vencer o que deseja ser vencido,
Lembro-me que há pouco fora a tua língua que disse: “Não fiz!”
Com estas duas palavras chegas a subjugar a ti
E se não vence por tua causa, vença pelo teu censo!

sábado, 25 de julho de 2009

Livro I - Elegia 8




Existe uma velha (que todo aquele que quiser conhecer uma alcoviteira ,
ouça), existe certa velha de nome Dipsas .
Tem este nome pela circunstância; ela, sóbria, nunca viu a mãe
do negro Mêmnon com seus cavalos róseos.
Ela conhece as artes mágicas e os feitiços de Ea
e habilmente faz recuar as águas à sua fonte;
sabe bem que erva, que fitas reunidas com seu torto fuso ,
que esperma das éguas no cio é eficaz .
Quando quer, as nuvens aglomeram-se por todo céu;
quando quer, o dia brilha pelo orbe puro.
Eu vi, se de algum modo acreditas, estrelas cobertas de sangue;
a fase da lua estava encarnada de sangue.
Suspeito que ela, transformada , voe pelas sombras noturnas
e que seu corpo de velha seja coberto de plumagem;
suspeito e diz-se; a dupla pupila também fulmina em seus olhos
e uma luz brota em seus círculos dos olhos.
Ela evoca de suas antigas sepulturas seus bisavôs e tataravôs
e separa a sólida terra com longas fórmulas .
Esta se propôs a macular os casamentos pudicos
e, todavia, sua língua não está privada de um discurso nocivo.
O acaso me fez testemunha do seu diálogo, ela ensinava
tais coisas (as portas duplas me ocultavam):
“Sabes, minha luz , que ontem foste do agrado de um jovem rico?
Ele ficou imóvel e não tirou os olhos do teu rosto.
Mas a quem não agradarias? A tua beleza não é inferior a nenhuma;
infeliz de mim! Tais qualidades estão longe do meu corpo.
Se eu quisesse serias tão feliz quanto belíssima:
se tu te tornares rica, eu não serei pobre.
A estrela hostil de Marte, desfavorável, prejudicou a ti,
Marte afastou-se; agora Vênus está apta ao teu signo .
Ei, presta atenção, que um futuro rico amante
te seja útil e te deseje: e que cuide do que te falta.
Ele também tem uma formosura que se compararia a tua;
se ele não quiser te comprar, deveria ser comprado.”
Ela corou: “Na verdade convém que o pudor sirva das alvas bocas, mas este
é útil se o simulas; verdadeiro, costuma ser prejudicial.
Quando olhares bem o seio, de olhos baixos,
na medida em que o outro consentir, deverá ser observado.
Talvez as impuras sabinas , quando Tácio era rei,
novas, não tenham querido ser de vários homens;
agora Marte agita os ânimos com guerras estrangeiras,
mas Vênus reina na cidade do seu Enéias.
As belas brincam: é casta aquela que ninguém solicitou;
ou, se a timidez não proíbe, ela própria solicita.
Do mesmo modo observa estas que trazem rugas no alto da fronte;
os muitos crimes cairão das rugas.
Penélope experimentava com um arco as forças dos jovens;
era em forma de chifre o arco que investia contra os flancos.
Secretamente o tempo volátil escorrega e engana
e o ano veloz desliza com os seus favoráveis cavalos.
As peças de bronze reluzem com o uso, um bom vestido merece ser estimado,
os tetos abandonados tornam-se velhos com o vil desleixo;
a beleza, a não ser que permitas, finda se ninguém aproveitar.
E um e outro não tem êxito suficiente;
nem a odiosa rapina já é certa para muitos;
uma presa bem forte vai do rebanho aos lobos de pêlo branco.
Eis, o que este teu poeta dá além de novos versos?
Receberás muitos mil do amante.
O próprio deus dos poetas , belo em seu manto áureo,
toca o sonoro fio da lira dourada.
Que aquele que te presenteia seja para ti maior do que o grande Homero;
acredita em mim, presentear é coisa espirituosa.
Não desdenhes se houver alguém salvando sua cabeça com um preço;
o crime do pé engessado é sem valor .
E que nem as velhas imagens de cera ao redor dos átrios te iludam:
carrega contigo os teus avôs , ó pobre amante.
Como, porque é belo pedirá uma noite sem presente?
Porque dá, te exigirá antes do seu amante!
Exige um preço mais baixo, enquanto estendes tuas redes,
para que não fujam; capturados, atormenta-os com as tuas leis.
E um amor dissimulado não prejudica; deixa que ele acredite ser amado,
mas toma cuidado para que este amor não saia de graça para ti.
Nega umas noites com freqüência, ora finge uma dor de cabeça,
ora Ísis será aquela que oferecerá as causas.
Recebe-o logo depois, para que não produza o hábito de sofrer
e para que um amor tantas vezes repelido não diminua.
Que tua porta seja surda ao que pede e aberta ao que traz ;
que o amante recebido ouça as palavras do excluído;
e, como ferida, algumas vezes torna-te furiosa em primeiro lugar com o ferido;
a tua culpa cessa com a culpa compensada.
Mas nunca apresentes um longo tempo em fúria;
muitas vezes uma ira demorada causa rancores.
Que teus olhos ainda não aprendam a chorar forçado
e ora este ora aquele façam suas faces umedecidas;
e, se enganas alguém, não temas perjurá-lo;
Vênus torna os deuses surdos a este jogo .
Que estejam presentes um escravo e uma escrava hábil para as duas partes,
que ensinem convenientemente o que possa comprar para ti,
e para si peçam pouco; se pedirem pouco de muitos,
logo haverá um grande monte de cereais.
Que a tua irmã, mãe e ama também arranquem de teu amante,
rapidamente uma presa torna-se visada por muitas mãos.
Quando te faltarem motivos para pedir presentes,
farei uma libação para declarar teu aniversário.
Cuida para que ele ame inseguro pelo rival desconhecido;
o amor não dura muito, se suprimes os combates.
Que ele veja por todo leito os vestígios de (outro) homem
e o pescoço feito lívido pelas lascivas conhecidas;
especialmente que veja os presentes que o outro tenha enviado;
se ninguém der, deve-se pedir na Via Sacra .
Quando tiveres tirado muitas coisas, sem que, contudo (o outro) dê todos (os presentes),
pede tu mesma aquilo que ele empreste, mas que nunca restituirás.
Que a tua língua ajude e esconda teu pensamento; acaricia-o e prejudica-o;
os ímpios venenos se escondem sob o doce mel.
Se cumprires estas coisas, conhecidas a mim pela longa experiência,
e se o vento e a brisa não levarem minhas palavras,
viva, muitas vezes dirás bem de mim, outras vezes pedirás que,
morta, meus ossos descansem tranqüilamente.”
A voz continuava, quando a minha sombra me traiu,
e com custo minhas mãos se contiveram
para que não destroçassem a sua alva e pouco espessa cabeleira ,
os lacrimosos olhos pelo vinho e as faces rugosas.
Que os deuses não te dêem nenhum Lar, mas uma velhice desgraçada
e longos invernos e uma sede perpétua.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Livro II - Elegia XII




Louros do triumfo circulem minha cabeça!
Vencemos: Aqui, em nosso leito, está Corina,
Aquela que o esposo, o guardião, a firme porta e tantos inimigos
Impediam que não pudesse ser seduzida pela (minha) astúcia!
Esta vitória é digna de superior triunfo,
A presa carece de qualquer gota de sangue.
Não há muros debéis ou fortalezas com pequenos fosso,
Mas uma moça que foi seduzida pelo (meu) engenho!
Quando Pérgamo caiu, vencida pela guerra bilustre,
Qual fora a parte atribuída ao Atrida entre tantos (heróis)?
Porém minha glória é única e não é partilhada por todos os soldados
E outro título não tem.
Os votos definiriam-me como chefe e soldado,
Eu mesmo fui o cavaleiro, o infante e o portaestandarte.
A Fortuna não foi a causa dos meus atos -
A isso una-se, oh Triunfo, parte dos meus cuidados!
Minha batalha não tem um novo motivo.
Se a filha de Tindaris não fosse raptada,
Não haveria paz entre Europa e Ásia.
Uma mulher desviou das armas os selvagens Lapitas
e o povo biforme, servindo-lhes vinho torpemente;
Uma mulher impeliu os troianos a mover
uma nova guerra em teu reino, justo Latino;
Uma mulher, ainda na recente cidade,
lançou os Romanos contra seus sogros
e cruel, deu-lhes as armas.
Eu vi dois touros brigando por uma nívea noviça;
Ela mesma, como expectadora, dava ânimo (a disputa).
A mim também, Cupido ordenou que eu, entre muitos,
levasse a bandeira de seu exército,
mas sem sangue derramado.